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A prenda, Mia Couto

O menino recebeu

a dádiva.

Era seu dia, assim disseram.

Estranhou:
os outros dias não eram seus?

Se achegou.
Espreitou.

A oferenda,
era coisa tão nenhuma
que nem parecia existir.

O que é isso?, perguntou.
É uma prenda, responderam.

Que prenda poderia ser
se tinha forma de nada?

Abre.

Abrir como,
se não tinha fora nem dentro?

Prova.

Como provar
o que não tem onde se pegar?

Olhou melhor.
Fixou não a prenda,
mas os olhos de quem dava.

Foi, então
o que era nada
lhe pareceu tudo.

Grato,
retribuiu com palavra e beijo.

O que lhe ofereciam
era a divina graça do inventar.

Um talento
para não ter nada.

Mas um dom
para ser tudo.

(Mia Couto, em vagas e lumes, 2014)
ilustração: Rogério Coelho
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